A quem engano além de mim?
Em quem acredito além de mim?
A mentira torna-se tão real quanto mundo. Se acreditamos no que queremos, seria o mundo real?
Vertiginosamente me calo e falo.
Me fecho e me abro numa interminável dança com o desconhecido.
A dor, que se torna companheira me olha incrédula: Quem é você, afinal?
Leve com os pés na água. Pesado para o poço do mundo.
Teu sorriso, meu forte.
Como foste parar tão longe?
Volta e aquieta a minha dor. Conta a história do mundo.
Conhecer é desiludir.
Sejas tu mesmo, pelo menos agora.

Seus efeitos não eram exatamente nocivos, mas existiam e se faziam valer. De certa forma, tinha um carinho por este sonho. Apesar de não ser original, era meu, e somente eu poderia realizá-lo da forma natural dele.
Mesmo com todos os atritos que tínhamos entre nós, nos entendíamos e conhecíamos.
Somos complexos e poucos não se irritam com a complexidade, seja por não tê-la, seja por não entendê-la.
Ao longo do tempo fui adicionando e retirando elementos desse sonho. Na USP mesmo? No Brasil? O que eu queria com isso? Eu sempre quero muitas coisas ao mesmo tempo. Aqui e agora para ser exata.
Mas sou bastante aberta e acolho conselhos, peço opiniões, repenso tudo.
Confesso que não era fácil, às vezes sentia que estava travada nele. Mas me fazia achar que valia a pena, que era importante.
Só tinha esquecido de perceber que, em se tratando desta vida, tudo é importante. Inclusive quem nós realmente somos.
Me apego tão profunda e rapidamente às pessoas que provavelmente morreria junto com a primeira aula de anatomia que faria na Faculdade. Se vejo alguém, a primeira coisa que faço é imaginar sua história. Não, a saúde não vem em primeiro lugar. Amo cuidar, tornar melhor. Não tenho paciência com teimosia. Choro toda vez que vejo uma criança doente.
Entendeu?
Às vezes esquecemos de considerar a existência de nós mesmos; especialmente quando mais precisamos saber quem somos.
Hoje já posso dizer quem sou e o que quero e devo fazer, não completamente, mas boa parte se clareou. Foram necessárias tantas coisas!
Mas aprendi.
Muitos me disseram que Medicina não tinha nada a ver com Literatura. Deve ser porque não me conhecem!
Estou na USP. Fazendo Letras.
Por me enfiar em tantos buracos para saber quem sou, sei que estou exatamente no lugar em que deveria estar, sendo quem deveria ser. Realizando sonhos mais antigos. Tendo sonhos novos.
Não sei tudo. Ainda vou passar por tudo de novo, de um jeito novo, pelo novo.
